Todo mundo já viu aquele print no grupo: um Ryzen 5 5600 no AliExpress por um preço absurdamente mais barato do que no Brasil. E a dúvida que não sai é sempre a mesma:
Será que montar tudo comprando da China sai mais barato no total?
Não na teoria. No total. Com imposto, frete, câmbio, riscos e tudo dentro da conta.
A resposta existe — e ela tem nuances que a maioria dos comparativos ignora. Esse artigo é uma simulação completa, peça por peça, com valores reais de junho de 2026.
A build que vamos comparar
Para a simulação fazer sentido, escolhemos uma configuração equilibrada e popular — o tipo de setup que mais pessoas estão montando agora no Brasil:
— Processador: AMD Ryzen 5 5600 — Placa de vídeo: RX 6600 8GB — Placa-mãe: B550M — RAM: 16GB DDR4 3200MHz (2x8GB) — SSD: 1TB NVMe PCIe 3.0 — Fonte: 600W 80 Plus Bronze — Gabinete: mid tower com lateral em vidro e fans RGB
Essa é a build Ryzen 5 5600 + RX 6600 — um dos setups mais recomendados para 1080p em 2026, com custo-benefício amplamente reconhecido.
Cenário 1 — Comprando tudo no Brasil
Usando os preços praticados no Mercado Livre, KaBuM e Terabyte em junho de 2026:
Ryzen 5 5600: R$ 850 a R$ 950 RX 6600 8GB: R$ 1.000 a R$ 1.300 Placa-mãe B550M: R$ 600 a R$ 800 16GB DDR4 3200MHz: R$ 280 a R$ 380 SSD 1TB NVMe: R$ 280 a R$ 380 Fonte 600W 80 Plus Bronze: R$ 300 a R$ 450 Gabinete mid tower: R$ 200 a R$ 400
Total estimado no Brasil: R$ 3.510 a R$ 4.660
O ponto médio realista para quem pesquisa bem e compra nas promoções certas fica em torno de R$ 4.000 a R$ 4.200 para essa configuração completa.
O que está incluso nesse preço além das peças: garantia de 12 meses por componente, nota fiscal, suporte de assistência técnica nacional, entrega em 1 a 5 dias úteis, sem risco de retenção aduaneira e sem necessidade de acompanhar rastreamento por semanas.
Cenário 2 — Comprando tudo no AliExpress
Aqui começa a parte que a maioria dos comparativos não faz: incluir tudo na conta.
Os preços base no AliExpress em dólares
Ryzen 5 5600: US$ 85 a US$ 110 (aprox. R$ 510 a R$ 660 no câmbio de junho de 2026, com dólar em torno de R$ 5,90 a R$ 6,00) RX 6600 8GB: US$ 150 a US$ 200 (aprox. R$ 900 a R$ 1.200) Placa-mãe B550M: US$ 80 a US$ 120 (aprox. R$ 480 a R$ 720) 16GB DDR4 3200MHz: US$ 30 a US$ 45 (aprox. R$ 180 a R$ 270) SSD 1TB NVMe: US$ 45 a US$ 65 (aprox. R$ 270 a R$ 390) Fonte 600W: US$ 35 a US$ 55 (aprox. R$ 210 a R$ 330) Gabinete: US$ 30 a US$ 60 (aprox. R$ 180 a R$ 360)
Total em reais antes de qualquer imposto: R$ 2.730 a R$ 3.930
Parece muito mais barato. E aqui entra a parte que muda tudo.
O imposto que a maioria ignora
Em 2026, a tributação para importações por pessoa física funciona assim: compras até US$ 50 pagam 20% de Imposto de Importação mais ICMS. Compras acima de US$ 50 até US$ 3.000 pagam 60% de Imposto de Importação mais ICMS — que varia entre 17% e 22% dependendo do estado. Melhor Do Tech
Para compras abaixo de US$ 50, a carga tributária real fica perto de 44% a 47% do valor do produto, já que o ICMS é calculado “por dentro”. Para compras acima de US$ 50, o valor do produto pode praticamente dobrar na hora do checkout. Acelera Tech
Ou seja: qualquer componente acima de US$ 50 — o que inclui processador, placa de vídeo, placa-mãe e boa parte dos outros itens desta build — sofre tributação de 60% mais ICMS.
Aplicando os impostos sobre as peças mais caras da build:
Ryzen 5 5600 a US$ 95: produto R$ 570 + 60% de II = +R$ 342 + ICMS 17% = total aproximado de R$ 1.060. No Brasil, o mesmo processador está por R$ 850 a R$ 950.
RX 6600 a US$ 175: produto R$ 1.050 + 60% de II = +R$ 630 + ICMS = total aproximado de R$ 1.960. No Brasil, a mesma placa está por R$ 1.000 a R$ 1.300.
Placa-mãe B550M a US$ 100: produto R$ 600 + 60% de II = +R$ 360 + ICMS = total aproximado de R$ 1.120. No Brasil, entre R$ 600 e R$ 800.
Recalculando o total com impostos aplicados nas peças acima de US$ 50 e mantendo as menores com a alíquota de 20%:
Total estimado importando com impostos: R$ 5.500 a R$ 6.800
A conta virou. O que parecia mais barato ficou entre 30% e 60% mais caro do que comprar no Brasil.
Mas e o frete? E a estratégia dos pedidos fracionados?
Existe uma estratégia que circula nos grupos: fazer vários pedidos separados, cada um abaixo de US$ 50, para aproveitar a alíquota menor de 20% em vez dos 60%.
Sites participantes do programa Remessa Conforme — como o AliExpress — cobram os impostos no momento da compra. Compras abaixo de US$ 50 têm a alíquota de II reduzida para 20%. Fora do programa, o percentual sobe significativamente. Infotechcompras
O problema prático dessa estratégia para montar um PC é que a maioria das peças importantes — processador, placa de vídeo, placa-mãe — custa bem acima de US$ 50 individualmente. Não existe como fragmentar um processador em pedidos menores. Você paga os 60% ou não compra.
Para itens pequenos como RAM e SSD que às vezes ficam abaixo de US$ 50, a alíquota menor pode ser aproveitada — mas esses são exatamente os componentes onde a diferença de preço entre Brasil e China é menor, tornando o esforço pouco compensador.
Os riscos que não aparecem na calculadora
Além do preço final, existe um conjunto de riscos que só quem importou sabe calcular.
Retenção aduaneira afeta entre 20% e 30% das remessas do AliExpress, gerando cobranças extras de R$ 100 a R$ 500. Prazos podem se estender para até 90 dias. Qualidade variável e ausência de nota fiscal complicam trocas ou assistências técnicas. MyBest
Para componentes de PC, esses riscos têm peso extra. Um processador retido na alfândega por 60 dias enquanto o resto das peças está em casa é dinheiro parado sem utilidade. Uma placa-mãe com defeito sem nota fiscal e sem assistência nacional é prejuízo sem recurso.
Nunca peça para declarar como presente ou peças. A Receita Federal usa raio-x e inteligência artificial — se a descrição não bater com o conteúdo, a multa é de 100% sobre a diferença ou a mercadoria é perdida. Infotechcompras
Quando importar da China ainda faz sentido
A conta não fecha para montar um PC completo — mas existe uma janela específica onde a importação ainda pode valer.
Acessórios e periféricos abaixo de US$ 50: mousepad, cabos, adaptadores, ventoinhas extras, suportes. Nessa faixa, a alíquota de 20% torna a compra competitiva, especialmente em itens que custam o dobro no Brasil.
Componentes muito específicos não disponíveis no Brasil: coolers de modelos específicos, peças de reposição, itens de nicho. Quando não existe opção nacional, a importação é a única saída — e aí a conta é outra.
Quem tem acesso a endereço internacional: viagens ao exterior ou serviços de redirecionamento com endereço nos EUA ou Portugal permitem compras sem o imposto de 60%, com tributação diferente na entrada. Mas isso envolve complexidade logística que vai além de um pedido no AliExpress.
O veredicto da simulação
A narrativa de que “montar PC importando da China é muito mais barato” era verdade em 2021 e 2022, quando existia isenção de imposto para compras abaixo de US$ 50 e a fiscalização era mais branda.
Em 2026, com a tributação de 60% em cima de qualquer componente acima de US$ 50 — que é basicamente tudo que importa numa build — a conta não fecha mais.
Comprar no Brasil com pesquisa de preço, acompanhar promoções no KaBuM, Pichau e Terabyte e montar com garantia e nota fiscal é, na maioria dos cenários, mais barato no total e muito menos arriscado do que importar peça a peça.
A exceção são os periféricos pequenos e acessórios. Esses ainda fazem sentido importar quando o preço nacional for absurdo — mas processador, GPU, placa-mãe e fonte? O Brasil ganhou esse round.
📌 Leitura recomendada: → A ordem certa de comprar as peças do PC → Qual RTX comprar em 2026? A que dá mais por menos → Até quanto vale pagar numa RX 580 em 2026? → Como identificar gargalo no PC
